Pessoas que largaram tudo para se aventurar nesse mundão de Au Pair!

26 dezembro 2020

A grama do vizinho rico não é tão verde - Gatilho

Esse post terá uma abordagem bem PESSOAL e reflexiva sobre um assunto que vem me chamando muita atenção desde o fim do verão. O objetivo é mostrar todas as experiências que esse programa está proporcionando a MIM, como isso pode me/nos fazer evoluir em tão pouco tempo e como um assunto pode ser desmembrado e visto em várias partes.


2020 chegando ao fim... e como você está nesse momento?

Não teve quem escapou de viver uma montanha russa de sentimentos durante esse ano, principalmente para quem passou tudo isso longe da família e dos amigos.
Há quem se alegra nessa época, quem consegue renovar a sua fé e se agarrar em um minúsculo fio de esperança a espera de dias melhores; e há quem se sente depressivo, que não aguenta mais ouvir músicas natalinas, que precisa tirar forças de onde achava não ter mais para não enlouquecer. A solidão desse programa durante uma pandemia mexeu com o psicológico de muita au pair, mas usando aquela frase clichê de que Brasileiro não desiste nunca, eu quero lembrar o quão fortes nós somos e que nossos sonhos, com certeza, nos mantiveram em pé e nos fizeram chegar até aqui sem mandar todo mundo pra aquele lugar e sair correndo... kkkkkkkkcrying!!

Eu sou o tipo de pessoa que, mesmo em um ano normal, não curte muito essas festas de final de ano. A minha vontade é de me enfiar em uma bolha, me isolar do mundo e esperar as pessoas começarem a falar do carnaval. Então imaginem como está sendo esse fim de ano longe da família e dos amigos, com pandemia, presa com a Host family e sem a menor perspectiva de como será meu futuro... 

Ok Lorena, mas o que isso tem a ver com a Suíça?

Quero mostrar para vocês que muitas coisas que parecem... não são! Isso inclui principalmente a estabilidade emocional, nem tudo aqui é um comercial de margarina e talvez a grama do vizinho rico não seja tão verde assim.

É errado, mas ao mesmo tempo fácil, nós associarmos desenvolvimento econômico com uma sociedade feliz e perfeita. Digo que é fácil porque a maioria do povo brasileiro passa por problemas financeiros todos os meses, o que inclui, infelizmente, não ter o que comer. Por isso, a ideia de felicidade está muito ligada ao dinheiro e às coisas mínimas de sobrevivência: ter comida, ter um teto, ter água limpa, saber que vai sair de casa pela manhã e voltar vivo de noite. Então para muitos BRs um país como a Suíça, onde a desigualdade social é pouca e onde todos os pontos citados anteriormente não são preocupações reais dos Suíços, muitos criam uma ideia errada (porém fácil de se compreender o porquê) de que aqui, todo mundo é feliz, que não existe problemas e que vivemos todos em um conto de fadas.
Vocês conseguiram seguir minha linha de raciocínio?

A verdade é que a Suíça possui vários problemas, que talvez não sejam tão pertinentes no nosso cotidiano brasileiro, e que só depois de conversar muuuito com a galera daqui e, em seguida, trocar conclusões com outros Brs, eu pude ver que o Brasil, sem dúvida alguma, é o país mais evoluído e aberto às discussões de assuntos psicológicos/emocionais. O que, convenhamos, foi extremamente necessário durante esse ano.

Infelizmente, na Suíça, e posso até me arriscar a dizer que na Europa no geral, fazer terapia ainda é algo associado a pessoas "loucas". Ninguém vai ao psicólogo! Saúde mental, controle emocional, ansiedade e depressão são quase tabus. Você não vê jovens falando sobre isso ou tendo um mínimo de conhecimento. Apesar da existência de uma central telefônica de ajuda na Suíça Romande (Stop Suicide), até hoje não vi nenhuma campanha que trata esses assuntos de forma humanizada e preventiva. Consequentemente, o suicidio é a maior causa de morte entre jovens de 14 a 25 anos.

E aí entra a dúvida que eu já ouvi bastante: mas por quê? Eles têm tudo. Eles tem casa, escola, comida, lazer, saúde...

Como eu disse anteriormente, talvez para a realidade da nossa bolha brasileira, fica difícil explicar o que faz de um país tão bem estruturado e desenvolvido ser atrasado nesse assunto e acarretar problemas maiores para os seus moradores. O que já é um problema durante o ano, se agrava ainda mais nessa época. Os índices de suicidio aumentam bastante e as centrais de ajuda ficam sobrecarregadas. Para piorar mais a situação, veio a pandemia, e o que antes era um problema mais voltado para o público jovem, hoje afetou as pessoas com mais idade.

Creio eu que se eu não tivesse fazendo a minha terapia online, mesmo com a minha HF me "julgando", e mesmo com meus amigos daqui não entendendo o que eu fazia nas minhas sessões já que eu não era "louca", eu não teria conseguido aguentar um lockdown de quase 4 meses dentro de uma casa com os pais e três crianças. Eu acho que já teria chutado o pau da barraca e desistido de tudo aquilo que eu levei aaaaanos para conseguir.



O intercâmbio te porporciona uma troca cultural gigantesca e, por muitas vezes, chegamos no outro país bem tímidos, nos achando inferiores em certos aspectos, pensando que temos mais a aprender com eles do que o contrário. Mas eu estou aqui para mostrar para vocês, através do meu ponto de vista e experiência, que não devemos nunca subestimar nossa vivência e conhecimento, por mais bobo que achamos que seja. Eu me considero bem privilégiada por ter crescido em um meio onde eu tinha acesso a esse tipo de infomações, porque foi graças a isso que eu mantive minha saúde mental durante 2020. Por isso, hoje eu presto muita atenção a quem está a minha volta e tento conversar, explicar, ajudar, fazer o outro se abrir mais a esses assuntos, porque assim como eu, com certeza tem gente que se sente depressiva no final do ano e não sabe nem como dizer nem a quem dizer.

Uma das coisas que eu mais gosto na Suíça é que cada um cuida da sua vida. Ninguém se importa como você se veste, o que você come, com é o seu cabelo ou seu corpo. Ninguém tá nem aí pra você!
Uma das coisas que eu menos gosto na Suíça é que ninguém tá nem aí pra você, e por isso, ninguém quer ouvir os teus problemas.
Talvez eu (ou você) que vim que um país não tão bem desenvolvido, cheio de problemas sociais, políticos e econômicos, vou poder ajudar alguém com o meu jeitinho brasileiro e caloroso.





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Lorena Egyed
Au Pair na Suiça

2 comentários:

  1. Oi Lorena, sempre escuto falar mesmo que a vida na Suiça parece ser perfeita (Cristina de Grey's em Switzerland haha) então, não imaginava que a cultura acaba por ver a psicologia como coisa de "loucos"! Eu deletei a minha conta do Instagram no 1º dia de 2020 e comecei terapia esse ano também e alguns me acharam radicais por ter deixado as redes sociais e quando comentei sobre a terapia, perguntaram se eu "estava bem" como se realmente precisamos estar passando por alguma coisa ruim para procurarmos um profissional dessa área. Fico feliz em saber que você não se sente "ashamed" por trabalhar os seus sentimentos, principalmente durante o intercâmbio de Au Pair e mais, em um ano tão atípico. Feliz 2021!

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  2. Oi Lorena,
    Fico feliz em você estar pensando nos outros ao seu redor, isso é muito importante e empático da sua parte! Eu já tinha ouvido falar no aumento dos casos de suicídio na Europa esse ano e é realmente triste!
    Isso que vc falou é verdade,as aparências enganam bastante e infelizmente ninguém e nenhum lugar é perfeito, sempre vai existir o lado bom e e o lado difícil!
    Sinto muito por vc e todas as au pairs que estão passando o fim de ano com a host family, sem poder ver familia e amigos, eu sei bem como é difícil! Desejo muita luz e amor pra você!
    Beijinhos!

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