Pessoas que largaram tudo para se aventurar nesse mundão de Au Pair!

04 janeiro 2021

Um rematch, a pandemia e uns desprazeres.

Heeeeey, gente! 🐨

Para este mês, eu decidi continuar contando sobre a minha trajetória como Au Pair. Como eu contei no post do mês passado, chegou um momento com os Vickerson's que de modo amigável, o rematch veio. Naquela época (meados de Março), eu comecei a procurar por novas host families em Brisbane e arredores. Como eu já tinha todos os meus próximos cursos programados, eu não tinha a opção de mudar para outra cidade, então minhas opções estavam limitadas. Há uma procura enorme por Au Pairs por aqui, mas para quem tem visto de estudante, como eu, e atende às aulas, é muito mais complicado de conseguir "encaixar" os horários com os que a host family precisa. 

E foi no site do Au Pair World que eu encontrei a host family indiana com a qual eu morei dos meados de Março até o final de Julho. Eu troquei algumas mensagens com a host mom e ela me chamou para uma entrevista presencial em uma cafeteria perto de onde ela mora. Me recordo até hoje, foi em uma segunda-feira, na hora do almoço, estava bem quente! 😰 Eu saí mais cedo da aula, peguei o ônibus do centro da cidade e fui até Forest Lake. 

A HOST FAMILY: REQUISITOS x BENEFÍCIOS 

Para esta host family, a au pair que eles estavam procurando deveria saber cozinhar, estar disposta a aspirar o primeiro andar da casa, passar o mop (é como passar pano) no térreo, ter flexibilidade para trabalhar aos finais de semana e fazer uns extras de babysitting para uma família de amigos. Em troca, a au pair teria acomodação, alimentação, quarto e banheiro privativo, e o pocket money. A host mom é enfermeira e trabalha em escala de 2-3x por semana, ou a noite ou durante o dia; o host dad é engenheiro, pesquisa e desenvolve equipamentos para tratamento do câncer, viaja a trabalho e quase nunca está em casa. E eles têm duas host kids: uma menina de 12yo e um menino de 8yo. 

Nos dias que eu não estaria trabalhando, eu estaria na outra família, auxiliando a mãe com os dois meninos pequenos (2yo e 3mo) e ganhando um dinheiro extra. Morando há dez minutos andando de um shopping, sete minutos do ponto de ônibus, quinze minutos do parque principal do subúrbio e tendo dias mais espaçados de folga, foram pontos que vieram como bons benefícios, ainda mais considerando que a situação a qual eu estava naquela época estava desfavorável no que dizia respeito as opções. Durante a entrevista, eu também perguntei se estaria tudo bem receber a minha mãe na casa deles, pois ela estava com passagem comprada para Maio. E foi dito que tudo bem, desde que ela não atrapalhasse os meus dias de trabalho. Isso também foi um ponto que eu levei em consideração. 

Outro ponto que me chamou muito a atenção para esta família foi o fato de serem indianos. Eu sempre admirei muito essa cultura, desde antes da novela "Caminho das Índias" (Que eu descobri, posteriormente, que não trazia tanta verdade assim sobre o país e sua cultura). Eu cheguei a ver muitos relatos nos grupos de Au Pair no Facebook, falando sobre meninas que tiveram experiências com host families indianas, em sua maioria, ruins. Porém, sempre tive comigo o seguinte pensamento "Ninguém é igual a ninguém, cada um tem a sua própria experiência e aprendizados". 

Eu até cheguei a conversar com a au pair alemã que estava com eles, mas ela não foi muito específica com as respostas das perguntas às quais fiz a ela. A host mom, desde o primeiro momento foi muito receptiva e atenciosa. Ela me passou bastante confiança e cuidado. 

A MUDANÇA & A PANDEMIA

Eu me mudei para a casa da host family na segunda semana de Março. Quando eu cheguei lá, fui recepcionada pela host mom e as host kids, pois o host dad estava viajando a trabalho, e a antiga au pair. Na primeira, a antiga au pair ainda estava conosco; ela ficou com a família por mais 3 dias e depois, foi embora. Então, eu acabei pegando a rotina mais com a host mom mesmo. Meu quarto se tornou o quarto que era da host kid e o quarto da antiga au pair se tornou o quarto da host kid.

Nesses primeiros dias sem o host dad presente, a casa era verdadeiramente uma casa com crianças. As host kids brincavam, corriam e gargalhavam pela casa toda! Não tive nenhum problema com comida, podia colocar qualquer tipo de alimento na lista de compras que a host mom comprava. O comportamento diante da mãe era bom, sempre respeitando as ordens dela e auxiliando com algumas tarefas da casa como tirar o lixo, encher e esvaziar a lava-louças. E eu pensava comigo "Nossa! Acho que tirei a sorte grande! Duas kids, poucas atividades, vou conseguir ter mais tempo para estudar!". Ah! Diferente de muitos depoimentos que li sobre au pairs nos EUA que moraram com host families indianas, a casa era um brinco! Super organizada e limpa!! 

O que eu não esperava, assim como ninguém, era que uma pandemia fosse atingir não só a Austrália, como o mundo todo! E com isso, as viagens a trabalho do host dad foram prorrogadas e ele voltou para casa. No final da segunda semana aqui, o estado de Queensland entrou em lockdown e tudo começou a fechar. O meu curso passou a ser online, a escola das crianças encerrou as atividades mais cedo e os meus hosts continuaram trabalhando. O host dad trabalhado de casa e a host mom assumiu novos dias de trabalho. Isso foi algo muito ruim! Não falo pelo fato de ficar trancada em casa com pessoas que você mal conhece, mas de ficar trancada em casa, tendo mudanças na sua escala de trabalho sem qualquer aviso prévio, em que todos os dias, podiam surgir necessidades especiais e você ter que trabalhar mais horas do que fora acordado e sem qualquer aumento. 

As mudanças mais drásticas vieram com:

  • O host dad pegando a minha cópia da chave da casa de volta, com a desculpa de que eu não tinha por que tê-la comigo, já que estávamos em lockdown, ninguém saindo de casa, com exceção da host mom; 
  • O host dad assumindo atividades que eram minhas, de cuidado das host kids, e jogando atividades de limpeza da casa como minhas novas obrigações e mesmo que eu conversasse com a host mom, não surtia efeito nenhum; 
  • O host dad determinando que as host kids não podiam brincar ou praticar seus instrumentos enquanto ele estivesse em reunião, limitando ainda mais as opções que as crianças tinham para se distrair, visto que, ele passava praticamente o dia todo em reunião;
  • O tratamento do host dad para com a host mom e a filha, que era bastante pesado e desconfortável. E o filho que replicava o comportamento do pai, sem qualquer penalização pelo seu comportamento;
  • O trabalho extra com a família amiga da minha host family não rolou, já que estávamos trancados em casa e o dinheiro planejado para o período com eles, nunca veio;
  • O host kid, o menino mais novo, me tratava como se eu fosse um nada. Incontáveis foram as vezes em que ele me destratou por simples e espontânea vontade ou porque eu não o deixei fazer algo. Inclusive, houve um dia que ele pediu para gravá-lo falando de mim e compartilhar com os meus amigos, porque ele queria saber se tinha razão sobre a minha feiura; 
  • Eu cozinhava para toda a família e o host dad não comia a minha comida. Segundo ele, era porque eu não cozinhava pratos típicos da Índia. E com isso, o filho dele passou a se recusar a comer tudo que eu preparava. 

O período de lockdown aqui em Brisbane foi do final de Março até o final de Maio. Aos poucos, as lojas começaram a abrir, seguindo medidas preventivas e protetivas com relação ao vírus, as aulas voltaram e foi tranquilizando as saídas de casa. Porém, com as fronteiras fechadas, o host dad continuava em casa. 

Durante todo este período, eu percebi que o maior problema naquele ambiente era o host dad. Sim, há diferenças culturais que são gritantes entre a cultura brasileira e a cultura indiana. A forma como o homem trata a mulher é umas mil vezes pior se comparada com os problemas que temos no Brasil. Há outra diferenças, como o caso da comida, que dá para ir se adaptando, tanto que, eu comia curry quase todos os dias e não reclamava. Inclusive, isso é algo que eu tenho até certo gosto de falar a respeito, pois o meu conhecimento sobre a culinária indiana foi enriquecida! 

A cada dia que eu passava dentro daquela casa, as situações que eu presenciava, me deixavam mais e mais triste e desconfortável. Era como se eu estivesse fazendo um favor a eles por estar ali. Passei por situações bem ruins que mexeram muito com o meu psicológico, chorei demais e várias vezes. Tanto que houveram momentos em que eu só queria subir pro meu quarto, fazer minhas malas e ir embora! 

TRÊS SITUAÇÕES EM QUE EU ME SENTI UM 'NADA' ALI

  1. Dia das Mães chegando e eu fui perguntar as host kids o que elas queriam fazer de surpresa de dia das mães para a host mom e a resposta foi: "NADA". Eu achei estranho e perguntei a elas por que, foi quando a menina mais velha disse "Pergunta para o nosso pai. Ele quem sabe". Eu fui e perguntei para o host dad e ele me disse bem assim: "Não há por que você querer presenteá-la. Nem no aniversário dela, eu dou presente. Ela não merece". Isso me deixou muito chocada. Porém, considerando todo o esforço da host mom diante de tudo o que estávamos passando e todo o carinho que ela sempre teve para comigo, eu fui e comprei um presente e um cartão. De um lado do cartão, eu escrevi um textinho e agradeci por tudo que ela vinha fazendo por mim até então e do outro lado, eu dei para as crianças escreverem. O menino mais novo, por sua vez, escreveu assim: "Mom, do you love dad? ( ) Yes ( ) No". Foi aí que eu senti as coisas ainda mais erradas. A menina mais velha escreveu duas frases e colocou o nome dela. Na época, eu falei com uma amiga que é psicóloga e ela me disse que se desse, seria bom se eu arrumasse o cartão, tirasse o 'dad' e colocasse 'me'. Eu o fiz e no dia das mães, quando a minha hosta chegou do trabalho, eu entreguei o presente para ela, desejando Happy Mother's Day! E ela me abraçou, chorou e agradeceu muito por isso! Foi uma cena que deixou meu coração bem apertado, mas eu fiquei feliz que ela tenha gostado. O menino mais novo, por sua vez, viu o cartão corrigido e disse para a mãe que não era aquilo que ele tinha escrito, mas a mãe desconversou e tudo passou.
     

  1. O aspirador novo estava sem bateria, então eu peguei o antigo para usar e percebi que estava quebrado. As rodinhas não estava funcionando direito, então tinha que pegar pelo braço para subir toda a escada e puxá-lo de um cômodo a outro. Como foi a primeira vez, eu imaginei que já estivesse quebrado mesmo, ainda mais porque tínhamos o novo, então eu não cheguei a falar nada. Meu primeiro erro. A menina mais velha viu que eu estava com certa dificuldade para locomovê-lo pela casa e ficou só me observando. Eu fui até a minha hosta e perguntei a ela se tinha outro saco para o aspirador antigo pois aquele estava cheio e eu ainda tinha mais dois cômodos para limpar. Ela olhou torto e perguntou como que eu estava usando o aspirador antigo que aquele estava quebrado, mas que tudo bem, ela ia pegar outro saco. Neste meio tempo, a menina correu até o hosto e disse que eu havia quebrado o aspirador. No minuto que ela foi, não deu nem trinta segundos, o hosto veio atrás de mim, p* da vida! Ele não me deu lugar de fala, só soltou as ofensas, me acusando de não dar valor as coisas e não saber o valor do dinheiro, de produtos de qualidade, que era por isso que eu estava aqui como Au Pair e não trabalhando na minha área, como ele havia conseguido há oito anos atrás quando chegou na Austrália. Ele me humilhou totalmente, sem sequer fazer ideia do que tinha acontecido e saiu, de cabeça erguida. Eu me senti muito mal! Na mesma hora que ele saiu, eu fui pro banheiro e chorei muito! Passou o dia e quando foi de noite, a minha hosta veio se desculpar por ele, explicando que há vezes em que ele não presta atenção no que fala e acaba se expressando mal, mas que ele havia se arrependido de como me tratou. PORÉM, ele não veio se desculpar comigo em momento algum. 

  1. Eles saíram de casa, não me avisaram e eu fiquei trancada pra fora, no frio de 9°C. Lembram quando eu falei que o host dad pegou a minha cópia da chave no começo do lockdown? Então, depois que as coisas começaram a normalizar e a gente podia sair, ele não me devolveu a chave, com a desculpa de que estaria sempre em casa, sem sair, ainda mais durante a noite. Naquele dia, eu saí para ir ao shopping perto de casa e depois peguei um Uber até um restaurante para jantar, mas nem peguei nenhum casaco, porque quando saí, estava um dia agradável, sem sinais de que choveria ou esfriaria. Aqui na Austrália, eu aprendi que, de dia pode estar um sol de rachar mamona! E de noite, um frio que congela tudo! HAHAHA Então, eu voltei para casa e a temperatura que antes era 24°C, naquela hora, por volta das 20h, estavam 9°C. A cada estava toda trancada, luzes apagadas e eu tentei ligar para os meus hostos, ninguém atendeu. Eu não tinha para onde ir, aí fiquei esperando, no frio, as gracinhas voltarem. Quando eles voltaram, minha hosta toda sem graça "Faz tempo que você tá esperando? Nós acabamos saindo e esquecemos de te avisar. A bateria do celular acabou também. Me desculpa". O hosto, por sua vez, não disse um A. Pra ele, não fazia diferença. 

A LIÇÃO APRENDIDA

Durante esses quatro meses que eu morei com essa família, eu presenciei muitas situações e passei por momentos que foram muito difíceis para mim, que trouxeram lembranças da minha experiência como Au Pair nos EUA, em 2015. E a cada dia que passava, isso ia piorando. Eu tenho a impressão de que nós que temos sangue brasileiro, temos essa vontade de persistir e não se deixar abater por situações complicadas; que a gente pode tudo, que podemos ouvir por um lado e deixar passar pelo outro; que nada nos afeta e etc. Mas, dependendo das circunstâncias, das consequências, chega uma hora que o nosso corpo começa a reagir aos desprazeres que a vida está nos trazendo. E é muito importante parar e olhar para isso, sabe? 

Eu confesso que demorou para eu perceber a respeito. Tanto que só agora que eu estou aqui, escrevendo sobre essa experiência, que eu finalmente entendi quais os motivos de eu ter tido esta missão para com essa família. O hosto se sentia muito desconfortável em minha presença porque eu sou do tipo de pessoa que agradece por tudo e todos; me disponho a ajudar quando cabe a mim; me posiciono nas situações que precisam de um posicionamento e ouço quando estou errada; e sou presente, reconhecendo o que há de melhor nas pessoas. Então, ele foi fazendo tudo que tinha ao alcance dele para me deixar para baixo, desconfortável, para encontrar uma forma de "se livrar de mim". A cartada final foi me informar que eles estariam deixando de me pagar, já que eu não estava cumprindo com as expectativas deles - já que eles estavam mais tempo em casa e iam fazendo tudo - e eu poderia ficar, contanto que assumisse a faxina da casa ou poderia ir embora em 72 horas. 

Foi um baque! 72 horas para encontrar onde morar ou outro trabalho. O mundo caiu e eu fiquei desesperada! Não tinha para onde e como ir. E eu não queria ficar mais lá para assumir faxina e não ganhar nada por isso. Não era o combinado. Eu tentei argumentar, mas eles foram irredutíveis. Isso aconteceu em um sábado a tarde. Mas, graças a Deus e as muitas energias positivas vindas da minha família e amigos, eu consegui um rematch! Não era a minha ideia inicial sair da host family indiana e ir para outra host family, porque eu achei que já estava bom, já tinha sofrido o suficiente como au pair. Porém, essa oportunidade caiu como um presente de Deus no meu colo! 

Eu entrei em rematch no sábado a tarde. Abri os grupos de Au Pair in Brisbane no Faceboook no sábado a noite. Encontrei uma divulgação de vaga. Entrei em contato e fui dormir. No domingo de manhã, tinha o convite para uma entrevista presencial a tarde, do outro lado da cidade. Fui. Tive uma conexão muito boa com a host family (minha atual host family). A host mom ofereceu a vaga. Aceitei. Na segunda-feira a noite, eu estava saindo da casa dos indianos e vindo para onde eu moro atualmente. 

Antes, eu tinha comigo que eu já havia aprendido a dar valor à todas as coisas. Porém, nesses quatro meses, eu percebi o valor das mais pequenas coisas, pessoas e situações. E acima de tudo, eu aprendi a me ouvir. As surpresas inesperadas sempre virão, não importa o que façamos para evitar, elas sempre virão! Mas o importante é não se deixar vencer e, sim, aprender a lidar! Transformar o que parece perdido em um novo e próspero caminho em nossa vida! 

E desde o dia 20 de Julho de 2020, eu sigo como Au Pair de uma host family australiana. Mês que vem, eu venho contar um pouquinho para vocês sobre a experiência incrível que venho tendo com elas! 💙

E que Janeiro seja enriquecedor para todos nós! See ya! 🌟🌞


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Sthéfanie Manica
Au Pair na Austrália

Um comentário:

  1. Sthéfanie do céu, quantos babados e que bom que vc seguiu em frente! Fico feliz que esteja sendo tudo bem com a sua atual HF! Bjs

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